Muro israelense prende palestinos na Cisjordânia

Além de terem famílias e terras divididas pela barreira, eles praticamente não podem deixar o território

BELÉM, Cisjordânia – Uma semana antes do Natal de 2005, o menino Daniel, de 8 anos, caminhava de volta para casa triste. Na escola haviam dito que ele não deveria ter ido à aula com os sapatos sujos de esgoto, porque poderia transmitir doenças para outras crianças. Escavações dos israelenses ao redor de seu quarteirão tinham feito o esgoto refluir, cobrindo o chão de uma sujeira fétida, da qual não havia como desviar.

Quando chegou perto de casa, Daniel notou uma sombra diferente no chão. Olhou para o alto e viu que o prédio onde mora tinha sido cercado por um muro nove vezes o seu tamanho. As placas pré-moldadas de concreto foram colocadas em apenas um dia. Entre a ida e a volta de Daniel à escola, seu prédio tinha sido enclausurado no canto do muro, isolando-o de Jerusalém, das terras que eram da família de seu pai e do Túmulo de Raquel, local sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos.

Daniel sentou-se na sua cama e chorou. “Fomos enterrados vivos?”, perguntou para sua mãe, Claire. “Como Raquel, estamos enterrados aqui?” Claire não soube o que responder a Daniel. O muro de 9,2 metros que cobre três lados de seu prédio foi a última de uma longa série de derrotas. “Quando pensamos que não pode piorar, piora”, diz ela.

A família de seu marido, cristã como a dela, construiu o prédio em 1963. Quatro anos depois, Israel ocupou Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, além da Faixa de Gaza. A família sempre considerou que vivia em Jerusalém, em cujas escolas cristãs seus filhos mais velhos – uma garota de 17 anos, um menino de 14 e uma de 11 – chegaram a estudar.

Quando começou a segunda intifada, em setembro de 2000, o prédio ficou no meio do fogo cruzado entre uma instalação militar israelense e os palestinos que lhe atiravam pedras, coquetéis molotov e armas de fogo. No ano seguinte, no calor do levante palestino, Israel fechou a milenar estrada que ligava Belém a Jerusalém. Claire e todos os outros comerciantes perderam suas rentáveis lojas na avenida, que vendiam souvenirs aos turistas. A estrada, por onde provavelmente Jesus e Maria caminharam rumo a Jerusalém, nunca mais foi desbloqueada, assim como a fonte de renda da família, que a partir daí mergulhou em dívidas.

Passaram o ano de 2002 sob toque de recolher, só podendo sair de casa duas horas por dia. Há um ano e meio, o muro colocou um fim em todas as esperanças da família. “Perdemos tudo”, diz Claire, de 38 anos. As casas do tio de seu marido e de sua irmã, que ficavam a cinco minutos de caminhada, agora estão do outro lado da barreira cinzenta. Para visitar o tio, seu marido precisa de autorização especial do Exército israelense. Tem conseguido duas vezes ao ano: na Páscoa e no Natal. Por medo de não conseguir mais nem isso, ele prefere não dar o seu nome.

Serpenteando pelas cidades da Cisjordânia, separando comerciantes de suas lojas, fazendeiros de suas terras, trabalhadores de seus empregos, crianças de suas escolas, parentes e amigos, o muro é hoje a representação gráfica do histórico esforço de Israel de garantir sua segurança, e ao mesmo tempo de criar fatos consumados na geografia palestina. No último ano, ao mesmo tempo em que ele é construído, Israel tem convertido os principais bloqueios militares, de precárias instalações de blocos de cimento e arame farpado, em grandes estruturas de concreto armado, aço e vidro, parecidas com praças de pedágio modernas. O investimento, custeado, segundo o governo israelense, por doadores judeus americanos, confere uma permanência ao que parecia antes provisório.

Do ponto de vista dos palestinos, pouco mudou, no entanto. Eles continuam tendo de esperar horas nas filas de pedestres ou de carros, para terem seus documentos, roupas, objetos e motivos minuciosamente escrutinados antes de seguirem viagem. Para um olhar brasileiro, a realidade palestina é absurda. Vinte quilômetros na Cisjordânia podem representar uma longa viagem, consumir boa parte do dia.

Na verdade, o Brasil pode estar mais perto de Gaza e da Cisjordânia do que uma da outra. Foi o que sentiu Nour Odeh, correspondente da rede de TV Al-Jazeera em Gaza, quando quis se casar, em julho de 2002. Seu noivo, o diplomata Ammar Hijazi, estava em Gaza e não tinha autorização israelense para ir para a Cisjordânia. Já seu pai, o embaixador Kifah Odeh, na época representante palestino em Brasília, só conseguia permissão de Israel para entrar na Cisjordânia. Nour e Hijazi se casaram em Brasília. “Só no Brasil pude colocar meu marido e meu pai no mesmo lugar.”

Por aqui também há “jeitinho”. Um motorista palestino habituado a transportar jornalistas conta como pagou diversas vezes 50 shequels (US$ 12,50) para meninos no posto de controle de Kalandia, entre Ramallah e Jerusalém, jogarem pedras nos soldados israelenses. Tendo de se proteger detrás das barricadas, os soldados liberavam a passagem dos carros. De maneira geral, no entanto, os obstáculos criados pelos 540 postos de controle da Cisjordânia são incontornáveis.

No auge dos atentados terroristas, os soldados israelenses faziam os jovens palestinos se ajoelharem de cueca – não por pouco, mas por muito tempo – até se certificarem de que não havia bomba alguma. As medidas costumam ser um misto de prevenção e de punição coletiva, uma política para induzir a população palestina a se opor ao terrorismo – freqüentemente causando o resultado inverso.

Um árabe israelense (palestino das áreas ocupadas por Israel em 1948, com cidadania do país), conta que, no início do ano, estava embarcando com a família de férias para a Turquia no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv. Depois de passarem pelas exaustivas revistas a que são submetidos os palestinos, uma camiseta de seu filho de 11 anos ficou caída no chão. Uma policial afastou-a com o pé. “Meu sangue subiu”, recorda ele. “Comecei a xingá-los em hebraico, árabe e inglês.” Enquanto 20 policiais o rodeavam, ele perguntou, aos gritos: “Como vocês querem que meu filho goste dos judeus? Por que um menino de 11 anos tem que ser revistado sem roupa, se vocês têm todos esses equipamentos de raio-X?” Um dos policiais ameaçou não deixá-lo viajar, mas no final ele embarcou.

Os poucos palestinos que têm dinheiro e autorização para viajar por Ben Gurion relatam “humilhações” no aeroporto só por serem árabes. Os que provêm das áreas ocupadas em 1967 vivem uma situação muito mais precária. Em vez de passaporte israelense, eles têm um documento de laissez-passer, no qual os outros países cada dia colocam mais obstáculos para carimbar um visto. De curta duração, esses documentos podem deixar de ser renovados a qualquer momento, segundo os caprichos da política israelense.

Essa é a realidade da Cisjordânia. A da Faixa de Gaza é muito pior. Um dos territórios mais densamente povoados do mundo – 1,4 milhão de pessoas confinadas em 360 quilômetros quadrados -, ela é chamada de “formigueiro humano”, ou de “prisão”. É preciso ter uma razão muito convincente para obter permissão de sair da Faixa de Gaza, nem que seja para ir para a Cisjordânia, separada dela por uma faixa de 45 quilômetros de território israelense. Ser deputado palestino, por exemplo, não é suficiente. Os parlamentares de Gaza e da Cisjordânia realizam sessões por videoconferência. Apenas funcionários de organizações não-governamentais e dirigentes palestinos bem vistos por Israel – como os do Fatah – podem cruzar de um lado para outro.

Os moradores de Gaza se queixam de que jamais verão a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém; os de Jerusalém, de que jamais verão o Mediterrâneo; e os da Cisjordânia não verão nenhum dos dois. Mesmo para quem mora em Jerusalém, Israel proíbe a entrada na mesquita dos homens com menos de 40 anos.

Para viajar para outro país, os moradores de Gaza precisam sair pelo Egito. Mediante autorização de Israel, eles embarcam num ônibus sujo do posto de fronteira de Rafah para o Cairo, e têm de pagar pela viagem de cinco horas 120 libras egípcias (US$ 21) – o triplo do que custaria num táxi. Se Israel fecha a fronteira, os viajantes vão se aglomerando e dormem no chão por uma ou mais noites.

Quando isso acontece, o ônibus sai superlotado. Chegando ao aeroporto do Cairo, os viajantes recebem o tratamento de deportados, acompanhados todo o tempo por policiais. “Para ser sincero, me dói mais a humilhação dos egípcios que a dos israelenses”, diz o gerente de uma ONG que viaja com freqüência. “Pelo menos, sei que Israel é meu inimigo.”

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.

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