Tropas sírias invadem mesquita em reduto opositor e deixam 4 mortos

Tanques, canhões de artilharia e helicópteros dão apoio à operação do Exército em Deraa; fontes falam em ‘dezenas de mortos’

 

BEIRUTE

Numa operação que envolveu tanques, canhões de artilharia e helicópteros e deixou pelo menos quatro mortos, soldados do Exército sírio invadiram ontem a Mesquita Omari, na cidade de Deraa, no sul do país. A mesquita tinha sido ocupada por moradores da cidade, epicentro da revolta contra o regime sírio, e que está cercada por tanques do Exército desde segunda-feira. A intensificação da repressão coincide com a ampliação das deserções no regime. Outros 138 integrantes do Partido Baath, no poder desde 1963, renunciaram na região de Deraa, elevando para 268 o número de defecções.

Abdullah Abazeid, morador de Deraa, disse à Associated Press que o ataque à mesquita durou 90 minutos, e que os soldados abriram fogo com tanques e artilharia. Entre os mortos, segundo o morador, está Osama, filho do imã (líder religioso) da mesquita, Ahmad Sayasna. Reforços chegaram ontem de madrugada a Deraa, incluindo 20 veículos blindados de transporte de tropas, quatro tanques e uma ambulância militar, disse outro morador à agência americana. Uma testemunha afirmou que tiros eram disparados ontem no centro de Deraa.

O governo sírio não permite a entrada de jornalistas estrangeiros no país, e a cobertura é feita de Beirute, capital libanesa, a 1h30 de carro de Damasco, principalmente por meio de relatos de testemunhas e de ativistas de direitos humanos pelo telefone, ou de refugiados que cruzam a fronteira entre a Síria e o Líbano. Vídeos feitos com celulares também têm sido entregues a emissoras de TV e publicados na internet. Deraa está sem telefone, internet e eletricidade.

O Observatório Sírio de direitos Humanos informou ontem que 65 pessoas foram mortas na sexta-feira, quando os organizadores das manifestações convocaram um “Dia de Fúria” depois das orações do meio-dia no descanso semanal muçulmano. Das mortes, 36 ocorreram na província de Deraa; 27, na região de Homs, no centro do país; 1, em Latakia, reduto da minoria alauíta, à qual pertence o ditador Bashar Assad; e 1, na zona rural da capital, Damasco, onde raramente têm ocorrido protestos, graças ao forte esquema de segurança. A onda de revolta começou em Deraa, no dia 15 de março, depois que três adolescentes foram presos por terem feito pichações contra o governo. No total, 535 civis foram mortos nessas seis semanas de confrontos.

De acordo com Ammar Qurabi, dirigente da Organização Nacional pelos Direitos Humanos na Síria, as autoridades estão obrigando as famílias de Deraa a assinar documentos segundo os quais seus parentes foram mortos por “grupos armados” – a versão oficial. Ele disse também que as famílias estão recebendo ordens de fazer funerais privados, só com a presença de parentes, para evitar que se transformem em atos contra o governo. O ativista acrescentou que 100 pessoas estão desaparecidas em Homs, a terceira maior cidade, no centro do país. De acordo com a TV estatal síria, “terroristas armados” mataram quatro soldados e três policiais em Deraa e em Homs. Dois outros soldados foram capturados, mas depois liberados.

 

Cerca de 10 mil pessoas foram às ruas de Damasco na sexta-feira. Milhares de manifestantes protestaram também em Homs, em Banias e Latakia, na costa oeste, em Raqqa e Hama, no norte, e em Qamishili, no nordeste. Hama foi o cenário do massacre de cerca de 20 mil pessoas em 1982, durante uma rebelião da maioria sunita contra o governo do então presidente Hafez Assad, pai de Bashar.

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